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Relacionamentos

Quando amar é difícil: sobre apego e autonomia nos vínculos

Leilinanda Neves4 min de leitura

Há uma experiência comum que costuma chegar ao consultório com palavras parecidas: "eu sei que esse relacionamento não me faz bem, mas não consigo sair". Ou, em outra versão: "eu tenho tudo para ser feliz com essa pessoa, e mesmo assim me sinto sufocado". O que essas frases têm em comum é a distância entre o que a pessoa pensa que quer e aquilo a que de fato se prende. Amar, para muita gente, não é apenas difícil pelas circunstâncias externas. É difícil por dentro — e essa dificuldade tem história.

Os primeiros vínculos deixam um molde

A teoria do apego, desenvolvida a partir do trabalho de Bowlby, propôs algo que hoje parece quase óbvio, mas que foi revolucionário: a forma como fomos cuidados nos primeiros anos de vida deixa um modelo de como esperamos ser tratados em relações futuras. Não um destino, mas um molde. Uma criança que aprendeu que a proximidade vinha acompanhada de imprevisibilidade tende a carregar, na vida adulta, uma vigilância difusa diante da intimidade. Outra, que aprendeu que precisava se calar para não perder o vínculo, pode crescer confundindo amor com renúncia de si.

Esses modelos não são lembranças conscientes. Eles operam de modo silencioso, antes do pensamento, na velocidade do afeto. Por isso a pessoa muitas vezes não entende a própria reação: ela responde ao parceiro presente com uma gramática aprendida em outro tempo, com outras pessoas.

Repetimos, nos vínculos adultos, não o que escolhemos, mas o que aprendemos cedo demais para lembrar que aprendemos.

A repetição que parece escolha

A psicanálise chama atenção para um fenômeno que costuma desconcertar quem o vive: a tendência a reencontrar, em relações novas, dinâmicas dolorosamente familiares. Não por masoquismo, e não por azar. Há algo no psiquismo que busca reencenar o que ficou em aberto, como se houvesse uma esperança muda de que, desta vez, o desfecho seja diferente. A pessoa que sempre se apaixona por quem está indisponível, ou que só se sente viva em relações tempestuosas, não está escolhendo livremente. Está cumprindo um roteiro que não escreveu e que raramente reconhece como roteiro.

Isso não significa que estamos condenados a repetir. Significa que a repetição costuma vir disfarçada de escolha — e que poder enxergá-la como repetição já é o início de alguma liberdade.

Vínculo não é dependência

Aqui é preciso uma distinção que muda tudo. Vínculo e dependência não são a mesma coisa, embora se confundam com facilidade. Winnicott descreveu, ao falar do desenvolvimento, algo que vale também para o amor adulto: a capacidade de estar só na presença do outro. Parece um paradoxo, mas é talvez a melhor definição de um vínculo saudável. Significa poder estar perto sem se dissolver, e poder ter um espaço interno próprio sem que isso ameace a relação.

Na dependência, o outro funciona como condição da própria existência: sem ele, a pessoa não se sente inteira, e por isso qualquer distância vira ameaça. No vínculo, o outro é amado como alguém separado, com vida própria — e é justamente essa separação que torna o encontro possível. Não se pode encontrar de verdade quem não está, em algum nível, distinto de nós.

Autonomia dentro da intimidade

O que torna o amor difícil, muitas vezes, não é a falta de sentimento, mas a dificuldade de sustentar duas coisas ao mesmo tempo: o pertencimento e a separação. Amar pede que se possa estar profundamente ligado a alguém sem desaparecer nessa ligação. Pede uma autonomia que não é frieza nem distância, mas a posse de um lugar próprio de onde se pode, então, oferecer-se a outro.

Quando esse lugar não foi suficientemente construído nas primeiras relações, a intimidade adulta tende a oscilar entre dois medos: o de perder o outro e o de se perder no outro. É possível trabalhar isso. Não por força de vontade, mas pela escuta paciente das marcas que esses primeiros vínculos deixaram — e pelo reconhecimento de que o que se aprendeu cedo pode, com tempo e elaboração, ser revisto. Amar continua exigindo coragem. Mas deixa de ser, ao menos, a repetição cega de uma história que já não precisamos viver de novo.

Leilinanda Neves — psicóloga clínica de orientação psicanalítica. Atendimento individual online para adultos.